segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Crônica do celular

F.Carvalho
A velocidade com que a tecnologia avança em todas as direções nos deixa perplexos ao tempo em que lança no passado ares de romantismo, saudosismo, doces e amargas melancolias. Em alguns casos faz das remotas, mas festejadas, descobertas coisas no mínimo risíveis. Se duvidas, que tal saíres por aí com um modelo de celular lançado no inicio da década de 90, quando este prodígio chegou por estas bandas do Delta! Alguns beiravam os quinhentos gramas e não eram nada discretos no tamanho. Falar ao celular no meio da rua, naquela época, era logo motivo para ser apontado como pessoa exibida, metida a besta. O contrário de hoje em que falar ao celular tornou-se algo tão necessário quanto corriqueiro.
Ter celular já foi sinônimo de status. Os usuários de celular foram, a princípio, pessoas que andavam a bordo de carangas luxuosas ou, no mínimo, de motos sofisticadas. Ostentar um celular combinava com clubes do high society, com gente que andava de lanchas e jetskys, fumava charutos caros ou, no mínimo tinha um emprego com salário a partir de cinco dígitos. É. Já foi assim.
Depois este objeto começou a descer a pirâmide social, se tornando acessível aos menos endinheirados mas que tivessem um pouco de sonho e ousadia. Mas ainda não chegava a ser um gênero de primeira necessidade, nem tampouco popular. Hoje é que o aparelho poder ser conseguido de brinde.
Lembro que quando comprei meu primeiro desses aparelhos, me senti um exemplo de brasileiro incluído socialmente, pois já podia passear com a namorada, que hoje é minha esposa, ostentando um tijolão da Motorola, algumas vezes conectado ao carregador de bateria com seu grosso fio em espiral ligado no acendedor de cigarros do Del Rey. Era “pode” de chique.
Naquela época um humilde, porém ousado trabalhador de Parnaíba, saiu de casa na sua bicicletinha disposto a escandalizar. Quer dizer, a telefonar. Entrou na única loja da cidade que vendida o cobiçado aparelho e mandou descer um da prateleira, para desânimo e descrédito do funcionário do local. Mas surpreendeu-se: aquele homem de traços rudes e mãos calejadas tinha o nome limpo na praça e, no bolso, o dinheiro suficiente para a entrada. Saiu de lá com uma caixa de aproximadamente 25 centímetros de comprimento, oito de altura e de largura. Amarrou-a com ligas na garupa da velha bicicleta barra circular e rumou acelerado para o prédio da Telepisa, extinta estatal do Piauí responsável pela habilitação e oferecimento dos serviços de telefonia celular.
O escândalo foi maior quando o dito pedreiro irrompeu o trânsito intenso da Praça da Graça, pedalando lépido por entre carros e motos, com o telefone colado ao ouvido e falando alegremente, sem dar trela aos curiosos.
- Alôôô! To na Praça da Graça, disse ele ao telefone em voz alta e sem modéstia.
O homem que passava na calçada achou o diálogo estranho e olhou para trás, assustando-se. Prosseguiu, caminhando de costas, e quase se chocou com um poste. O que ele pensou nunca se soube. Mas a cara era de espanto. A novidade não era o celular. Mas ver uma pessoa de bicicleta falando ao celular era algo inusitado. Uma mulher que esperava uma oportunidade para atravessar a rua, puxou a camisa do marido e apontou para o ciclista falante.
- Ele ficou doido?
- Está falando num telefone celular! Acudiu o marido, atônito.
- Ora mais! De bicicleta e falando ao celular! Isso não combina.
Mas quem pôde ouvir o restante da conversa do animado ciclista foi um taxista que fazia ponto em frente à Caixa Econômica.
- O Que...? Rebocar a parede? Sim, eu vou amanhã cedo. Pode deixar.
E seguiu abrindo caminho, causando murmúrios, atraindo acenos e meneios de cabeça pelas ruas apertadas do centro comercial.
Esta cena não tem muito tempo. Pouco menos de vinte anos e o mundo já se transformou tanto que, hoje em dia, uma criança quando aprende a pronunciar mamãe já é premiada com um celular, equipado de câmera, bluetooth, mp3, rádio FM, internet... E isto promete ser penas o começo. Outros modelos já são tão sofisticados que deixam de ser um celular para ser um palm top que tem o celular como um dos seus muitos aplicativos.
Se vivi todas estas mudanças é porque estou ficando velho. E isso é mau. Mas também é bom. Pelo menos para quem não fica grilado com os estragos causados pela gravidade.
Mas, agora a expressão que está na moda é portabilidade numérica. E o melhor é que não precisa nem explicar.
(Texto: F.Carvalho)

4 comentários:

Blog do Romualdo disse...

De fato o tempo avança e não nos damos conta de que a tecnologia avança com ele e reduz seu tamanho, resistência a pancadas ou respingos; em outros tempos o celular foi, como diz-se, "artigo de luxo" e um pesado artigo, diga-se de passagem. Hoje o que é esperado é que além do tamanho e do status que proporciona (se é que ainda proporciona algum) reduza também a distância entre as pessoas que hoje já pedalam e falam numa boa e aquelas que não observam mais com admiração tal ato. Muito bom artigo, companheiro. Continuo acompanhando suas publicações.

Blog do Romualdo disse...

De fato o tempo avança e não nos damos conta de que a tecnologia avança com ele e reduz seu tamanho, resistência a pancadas ou respingos; em outros tempos o celular foi, como diz-se, "artigo de luxo" e um pesado artigo, diga-se de passagem. Hoje o que é esperado é que além do tamanho e do status que proporciona (se é que ainda proporciona algum) reduza também a distância entre as pessoas que hoje já pedalam e falam numa boa e aquelas que não observam mais com admiração tal ato. Muito bom artigo, companheiro. Continuo acompanhando suas publicações.

Blog do Romualdo disse...

De fato o tempo avança e não nos damos conta de que a tecnologia avança com ele e reduz seu tamanho, resistência a pancadas ou respingos; em outros tempos o celular foi, como diz-se, "artigo de luxo" e um pesado artigo, diga-se de passagem. Hoje o que é esperado é que além do tamanho e do status que proporciona (se é que ainda proporciona algum) reduza também a distância entre as pessoas que hoje já pedalam e falam numa boa e aquelas que não observam mais com admiração tal ato. Muito bom artigo, companheiro. Continuo acompanhando suas publicações.

Anônimo disse...

Adorei!!!!!!!!1 Principalmente a noticia q/os livros de literatura piauiense ja estarão nas escolas. É barbaro! fico feliz!!! Um abraço!

marcymsbarros