sexta-feira, 26 de abril de 2013

PEC que submete decisões do STF ao Congresso apimenta crise entre poderes

Que me desculpem os muitos amigos que concordam com a PEC 33, mas essa iniciativa do deputado Nazareno Fonteles(PT) é uma excrecência. Se for tirado do STF o poder de atuar no controle de constitucionalidade, para que mesmo servirá a mais alta corte desse país? Além disso, essa tentativa só está servindo para agravar a crise que já existe entre o judiciário e o legislativo brasileiro, com as condenações da Ação Penal 470. Não concordo. Não concordo que decisões de caráter técnico, deixem de ser manifestadas por uma corte isenta de apelo popular, para se tornar privilégio de um colegiado (congresso nacional) que diante de questões polêmicas e delicadas deixará de decidir com embasamento técnico para quedar-se à opinião pública, nem sempre esclarecida o suficientemente sobre estes assuntos, seja por falta de tempo, de discussão ou de manipulação por parte dos grandes grupos de comunicação. Que fique claro: refiro-me a decisões técnicas, como são as de caráter jurídico. Até porque, no que concerne às questões que envolvem conhecimento específico as ações são acompanhadas de laudos e perícias elaboradas por especialistas, restando aos julgadores a análise técnico-jurídica. No que se refere às decisões de cunho político, social ou econômico coincidentes com os anseios do povo brasileiro, claro que se adequam melhor às funções do legislativo. O PT, um partido que realmente mudou o Brasil para melhor, não deveria avalizar uma tentativa tresloucada dessa, pois se trata de um desserviço à imagem da agremiação partidária que ainda é a melhor do Brasil, em minha opinião. É o melhor partido, não porque seja o ideal. Mas porque nenhum outro deu tantas conquistas sociais ao nosso povo, ainda muito sofrido. Mas o PT precisa recuar em várias posições, para não igualar-se às piores siglas, entre estas as que tanto recriminou e derrotou. Outra coisa que percebo é que os petistas parecem estar afastando-se da decantada democracia interna, pois não se vê atitudes corajosas contrariando seus líderes, pelo menos em alguns casos. Atualmente, tudo que é dito pelos representantes maiores do partido no sentido de enfrentar o judiciário é logo seguido por um coro ensurdecedor de améns. Se o PT não se desfizer desse ressentimento, acabará diminuído perante a opinião pública. O que está acontecendo? Os companheiros estão perdendo uma de suas mais belas características que é discordar democraticamente uns dos outros? Por que ninguém dentro do PT tem coragem para dizer NÃO a um absurdo desses? Bem, acreditando na característica democrática de muitos amigos petistas que tenho é que exponho estas opiniões. Pelas reações destes ao que acabo dizer, tirarei outras conclusões. É isso. (F. Carvalho)

domingo, 14 de abril de 2013

Paulo Curicaca é chamado de “libertador de homens” pelo combate à escravidão no Pará


O auditor fiscal do Trabalho em Parnaíba Paulo César,o Curicaca é destaque na última edição da Revista Labor, anuário do Ministério Público do Trabalho.  Na entrevista o parnaibano conta sua experiência de ex-coordenador de um grupo móvel do Ministério do Trabalho e Emprego no combate ao trabalho escravo em regiões inóspitas do Brasil. Ele trabalhou no Sul do Pará onde afirma ter se deparado com a escravidão de trabalhadores e a violência extrema, característica destas situações irregulares.

À revista Labor Curicaca lembrou também como ficou no limbo do Ministério do Trabalho por algum tempo depois de ter, no começo da sua carreira de auditor, atuado na fiscalização de uma fazenda do empresário Ary Magalhães que, ao ser eleito deputado federal, indicou uma sobrinha para o posto máximo do Trabalho no Piauí.

Confira a matéria completa publicada na edição deste ano da Revista Labor, de circulação nacional.  (F. Carvalho, do www.a24horas.com)
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O Libertador de homens
 Aos 57 anos, como ex-coordenador de grupos móveis do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), tem muitas histórias para contar sobre o combate ao trabalho escravo contemporâneo, apesar de não integrar grupos móveis desde 2006. Na Gerência Regional de Trabalho e Emprego de Parnaíba, hoje ele investiga acidentes de trabalho urbano e, vez por outra, participa de fiscalizações rurais.

Curicaca, o Paulo César  Lima, nasceu na periferia de Parnaíba (PI), no bairro de São José, o Cheira Mijo, segundo os próprios moradores. Terceiro de quatro filhos de um alfaiate com uma aplicadora de injeção na veia de rua, como descreve a ocupação da mãe, foi criado por uma tia, até se formar em engenharia civil. Ele
também tinha como padrinho um médico, que o mantinha na escola. “Ganhava os livros e o uniforme se tirasse boas notas, a cada ano. Se rateasse na curva, me ferrava.
Sempre deu certo e, em 1972, foi estudar no Maranhão. Seu irmão mais velho já estava na faculdade. Em sua casa era assim: o irmão estudava, começava a trabalhar e passava a cuidar do mais novo.

Ele se formou em julho de 1978 e foi trabalhar em Rio Branco, na Companhia de Saneamento do Estado do Acre. Certa vez, foi apresentar um trabalho em Brasília e conheceu o prefeito de Parnaíba, que o convidou para retornar à cidade. “Era o sonho de minha vida, voltar formado e ajudar minha família.

Voltou como secretário do prefeito, trabalhando no Programa de Cidades de Porte Médio. Foi demitido na gestão seguinte. Passou apertado e o tinha dinheiro nem para consertar o pneu do carro. Então, um amigo falou sobre o concurso do Ministério do Trabalho. Paulo César fez a prova e passou. Era setembro de 1983.

Sua vida como Zumbi dos Palmares moderno começou com uma operação do MTE que constatou haver trabalho escravo na usina de álcool e açúcar do empresário Ari Magalhães.
Ele era auditor fiscal e acompanhou a investigação, comandada pela auditora fiscal Cláudia Márcia Ribeiro Brito, do acidente em Teresina que matara e ferira grande número de trabalhadores. Mais tarde, o empresário virou deputado federal e conseguiu trocar o comando da Delegacia de Trabalho. No lugar de Cláudia Brito, indicou Audrei Magalhães, sua sobrinha. Curicaca, assim, ficou algum tempo no ostracismo.

Mas era e é irrequieto como a ave pernalta que dá sentido ao apelido Curicaca. Um dia, de Brasília, Cláudia Márcia ligou para ele, convidando-o para trabalhar nos grupos móveis. Foi. Precisava ver se afinava com a ideia. Era 1994 e descobriu a vida. Vi os caras parecidos comigo. Todos da minha região. Todos nordestinos. Tinha afinidade com a luta.
Seu jeitão facilitava o contato com os peões. Falavam a mesma língua e não tinha dificuldade em compreender o que diziam. “Era um homem realizado, pago para fazer o que gostava.” Mas nem tudo era cor-de-rosa.
Havia dificuldades internas e externas. As primeiras estavam relacionadas a pontos de vista, à gestão das operações de fiscalização, e as segundas, aos parceiros, que não tinham o mesmo foco que os auditores fiscais. “Não acreditavam na existência do trabalho escravo. Diziam: ‘O cara veio pra cá porque quis. Ele estava quieto lá na casa dele. Por que não ficou no Nordeste?’. Os principais problemas eram diferenças com policiais federais.” Uma vez, um deles chegou a dizer: “Se um peão der trabalho para você, Curicaca, se ele se meter a besta, vai se ver comigo.” Os anos 1990 chegavam ao fim.  Mais tarde, passou a coordenar um dos grupos móveis. Os auditores fiscais Cláudia Márcia, Valderez Monte, Marinalva Dantas e Paulo Mendes comandavam os outros.

A primeira operação foi no Xinguara, no sul do Pará. “Saí de Parnaíba sozinho em direção a Caxias, no Maranhão. , encontrei a Cláudia [Cláudia Márcia Ribeiro Brito] e ficamos esperando outro auditor, o Sérgio Carvalho de Santana. De camionhete, fomos até Marabá”, conta.
Uma operação de fiscalização durava de 12 a 15 dias, naqueles anos. Hoje o tempo é menor. Há outras diferenças também, principalmente tecnológicas. Naquele tempo, não havia telefone, nem notebook. Tudo era no braço. Não havia nem câmera fotográfica. Hoje, os integrantes de um grupo móvel têm telefone e sistemas de posicionamento por sátelite. Têm computador, internet e bons carros para entrar no meio do mato.”
Curicaca andou em fazenda que tinha dez peões e até em algumas com 1,8 mil.
“A gravidade não está na quantidade de trabalhadores escravizados, mas na violência envolvida.” Ele explica que a escravidão por dívida é a mais palpável, pois você pega o caderno do gato e fica sabendo quem trouxe quem e como trouxe. “É um novelo, do qual só se sabe o começo, mas não se conhece o fim.”

Para ele, se o governo não educar, não promover a reforma agrária e não fizer leis mais rígidas, nada terá adiantado. “Esta é a solução: educar, criar empregos e resolver o problema da terra.”


CURICACA RESPONDE

Quando e como começou o enfrentamento ao trabalho escravo no Brasil?
Foi o bispo de São Félix do Araguaia, dom Pedro Casaldáliga, quem primeiro falou sobre a existência de trabalho escravo no Brasil. Eram os anos 1970. Mais tarde, Walter Barelli [ministro do Trabalho do governo Itamar Franco, 1992/94], declarou: Se tem trabalho escravo, vamos acabar com ele. E foi para Marabá (PA), acompanhado da auditora Vera Jatobá. Lá, eles criaram os grupos rurais de fiscalização. Os grupos móveis nasceram no governo Fernando Henrique Cardoso.
Como um homem se tornava escravo nos anos 1990?
O cara pegava um ônibus e chegava numa cidade – podia ser em Barras de Maratauã (PI), e anunciava em uma rádio FM que tinha trabalho no Pará. Ele, então, escolhia os mais novos, os mais fortes ou então aqueles que já tivessem trabalhado uma vez. De tanto o Ministério do Trabalho, o Ministério Público do Trabalho, a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal combaterem esse crime, eles mudaram a tática.
Como é organizada uma operação de fiscalização?
E tudo feito em sigilo. Na operação de Xinguara, por exemplo, não sabia o que ia ocorrer. Então, antes, em Marabá, encontramos os outros, Sônia Nassar, Alírio e Raimundo Tadeu. Também encontramos os policiais federais.
Naquele dia, senti o perfume da violência na cidade. Eu me assustei. O X9 também estava com medo. Tanto que saiu correndo do carro, no meio da noite, depois de passar as informações sobre o local da fazenda e o nome do gato. Chegamos ao amanhecer. Estava escuro. A polícia pegou Baiano Chapéu Preto e nós fomos calcular o tempo de serviço e o valor a que cada trabalhador tinha direito. Foi a primeira vez em que me deparei com a inteligência dos peões. Faltou cola para fixar o retrato na carteira de trabalho e um peão, o Vampiro, pegou um pedaço de isopor, um pouco de gasolina e fez a cola. Era assim que ele colava os bicos das botinas, no meio do mato. Encontrei aquele gato outras duas vezes, nas fazendas Brasil Verde e na Rio Vermelho, ambas no sul do Pará.
O tempo do planejamento depende de cada caso. Se for roço de juquira tem que ser rápido. Imagine um fazendeiro com 200 peões cortando juquira para limpar pasto. Em três ou quatro dias, tudo estará terminado.
Qual é a dinâmica atual do trabalho escravo? Depois do cerco aos fazendeiros, como eles agem para aliciar mão de obra?

A dinâmica hoje é outra. O gato paga o dinheiro da passagem para o peão, até Miranda do Norte (MA). Lá, ele pega o trem da Vale do Rio Doce e vai até Marabá (PA). É um trem de carga e de passageiros. Em Marabá, ele pega uma caminhonete garimpeira, uma D-20 coberta de lona com bancos de madeira e vai até Xinguara.
Lá, ele fica em um hotel de pioneiro à disposição do gato. A dona da pensão nem se preocupa com o dinheiro das diárias, porque ela sabe que mais dia menos dia vai chegar um gato para assumir a dívida do peão e levá-lo para uma fazenda. Essa é a dinâmica de hoje.
Os donos de hotéis também são cúmplices?
Sim, eles fazem parte da teia e alguns já estão sendo processados.
Quando o fazendeiro se torna cúmplice?
O grande patrão somente entra nesse circuito quando ele chama o gato, o arregimentador da mão de obra, e diz: “Eu quero tantos.” Ele não quer saber se o trabalhador veio do Piauí, do Ceará ou do Maranhão. Aí o gato chega e diz que tem 30 na pensão da dona Lourdes. “Paguei R$ 3 mil. Está aqui o caderno.” O cara vai e paga o dinheiro para ele. Aí começa a história.
Qual a reação dos fazendeiros?
O fazendeiro tem que pagar as rescisões na ficha, na hora. Houve uma época, no sul do Pará, que eles fizeram uma caixinha. Sabiam que os grupos não davam conta de mais de duas fazendas. Então, se um grupo está em uma fazenda e o fazendeiro não tem como pagar, esse grupo vai fiscalizando outras propriedades. Assim, eles se juntaram para pagar as dívidas rapidamente. Era uma forma de o grupo móvel ir embora logo.
Como ocorrem as operações?
A denúncia chega até a Comissão Pastoral da Terra (CPT ) ou a um sindicato de trabalhadores, que a encaminha à Secretaria de Inspeção do Trabalho. O MTE repassa os dados à Polícia Federal e ao MPT. O planejamento de uma ação dura de um a três dias. Geralmente, ocorrem em carvoarias, canaviais ou pastagens. A gente chega de surpresa. Eles não têm como saber que estamos indo. Chegamos nos hotéis em carros descaracterizados. Os donos desses estabelecimentos têm ligações estreitas com os fazendeiros, que não moram na região.
Então, não dizemos quem somos. Quando eles vêm de Goiânia (GO), Araguaína ( TO), Araçatuba (SP), ficam hospedados nos mesmos hotéis que nossa equipe. Os gatos também ficam lá. Então, temos que ser cuidadosos. Dizemos que somos de uma universidade. Que estamos fazendo pesquisas.
Como os procuradores do Trabalho entraram em cena?
A primeira vez em que viajei com um procurador do Trabalho foi em uma operação de fiscalização em 1998. Na cabeça da gente, os procuradores do Trabalho estavam distantes. Quando o MPT entrou na luta, a coisa mudou, porque passamos a ter quem acionasse a Justica imediatamente. Nós lavrávamos autos de infração, mas dez autos não têm a dimensão de um termo de ajustamento de conduta. Até em relação à Polícia, pois ficou mais fácil se entender com os policiais. Os fazendeiros ficaram mais acuados. A imprensa também passou a acompanhar as operações e a questão ganhou visibilidade
Você já deve ter vivido centenas de histórias...
Em Água Azul do Norte, no Pará, os peões achavam que eram bem tratados, pois o fazendeiro levava prostitutas ao acampamento. Em Itupiranga, no mesmo estado, o informante se enganou e deu o rumo errado da fazenda. Estávamos em três carros. Dormimos em Quatro Bocas, em um hotel sobre palafitas. Saímos cedo e paramos para comer ainda pela manhã. Era a Copa do Mundo de 2002 e o Brasil jogava contra a China. Quando voltamos aos carros, tinha um cara com o rosto coberto na frente de um deles. Os 12 assaltantes entraram, quatro em cada caminhonete. Curicaca levou um tapa de um deles. “Não mexe com o motora, porque ele não tem nada a ver com isso”, ouviu de outro. Fugiram em um ônibus e um caminhão de boiadeiro, levando armas, munição, notebooks e telefones. Eles sabiam quem éramos, eu tenho certeza.
Qual a que você sempre se lembra?
Foi a do menino Abel. Tinha 12 anos e trabalhava em uma carvoaria na região de Açailândia (MA). Fui conversando com ele. – Como é sua vida aqui? – Acordo às 5h. Vou tomar banho, tomo o café e começo a bandeirar [colocar a madeira em condição de ser medida]. Depois, vou encher o forno e almoço. Paro às 16h. – Não brinca e não estuda? – Não tenho tempo disso, não. Uma criança de 12 anos desesperançada. Ele não tinha perspectiva de vida. Vivia juntando dinheiro para comprar uma casa para a mãe, que tinha problema nas pernas. Seu maior sonho era ter uma bicicleta. Foi libertado e recebeu um dinheiro. Nunca mais tive notícias de Abel.



domingo, 7 de abril de 2013

Sete de abril - Dia do jornalista. Com ou sem diploma




Por F. Carvalho*
Hoje, 7 de abril, é Dia do Jornalista. Estes trabalhadores vivem há décadas divididos entre a relevância ou não da obrigatoriedade do diploma de graduação na área para a obtenção do registro de jornalista no Ministério do Trabalho e, desta forma, ter acesso aos postos de trabalho do setor.
A não obrigatoriedade do diploma é considerado por muitos um avanço democrático e, por outro flanco, tem enfrentado muitas resistências. Entre os políticos os apoios tem sido insípidos, insuficientes. Em numerosos casos os legisladores, por covardia, posicionam-se em favor da exigência do diploma por um motivo muito simples. As redações dos meios de comunicação nas capitais e outros centros emissores de opinião de massa são comandadas pelos jornalistas graduados na área.  Para estes políticos, desagradar profissionais tão bem posicionados no tabuleiro midiático pode significar redução de centimetragem nos jornais, minutos na TV, pixels nos sites e assim por diante. E como eles vivem de exposição...!
Mas também não resta dúvida de que é razoável e merecedora de atenção a ideia de um jornalismo plural, com a visão de profissionais de vários setores. Tanto é assim que eminentes estudiosos da comunicação social filiam-se a esta proposta e vão muito além da simples derrubada da obrigatoriedade do diploma, demonstrando que a discussão deveria ser ampliada, em vez de abafada.
O jornalista, professor e escritor José Marques de Melo, um dos mais respeitados teóricos do jornalismo na América Latina, apresenta sua opinião com clareza, em entrevista concedida à Revista Cidade Nova, da editora que tem o mesmo nome, edição de fevereiro de 2010: “Quando eu digo que ele (o jornalista) não precisa ter diploma, quero dizer que ele pode ter o diploma de graduação ou pós-graduação em qualquer curso superior. É assim que funciona em todas as partes do mundo”.
E não é preciso ir muito longe para encontrar opiniões parecidas. No seu livro “Jornalismo Cidadão – Informa ou Deforma”(2009, pag. 76), a professora do curso de jornalismo da UFPI, Maria das Graças Targino, assim se manifesta: “Reservas de mercado levam à padronização por baixo, e foi isso que aconteceu nas redações dos veículos de comunicação, desde que a reserva de mercado para os diplomados  em comunicação foi imposta após o Golpe Militar de 1964, numa espécie de busca de legitimidade na ilegitimidade imposta. É uma bênção que haja tantos cursos superiores de jornalismo no país. Mas uma maldição que apenas eles possam fornecer a mão-de-obra disponível. O que é obrigatório leva ao comodismo, e o comodismo é o pai de ineficiência”. Vale ressaltar que à época destas declarações o STF ainda não havia derrubado a obrigatoriedade do diploma.
Estas opiniões, por demais abalizadas, nos conduzem ao pensamento de que a queda da obrigatoriedade do diploma, que resultou num vazio normativo, poderia ter sido seguida por um esforço para normatizar a nova situação. Um destes vácuos, pós-decisão do STF, foi a não exigência de qualquer escolaridade para o exercício do jornalismo, o que chega a ser inconveniente. Enfim, como o melhor jogo é sempre o democrático, a decisão que vier pautada na vontade da maioria prevalecerá e, por ser legítima, virá merecedora do respeito e do acolhimento de todos.
Então, que este 7 de abril, Dia do Jornalista, seja de homenagens a todos que exercem esta profissão com talento e responsabilidade, prestando um serviço relevante à sociedade, além de estar fortalecendo um dos pilares da democracia que é a informação.
*F. Carvalho é jornalista (DRT 3224-10-49)
Graduado em Letras Português/Estudante de Direito



terça-feira, 2 de abril de 2013

Todo feriado é um conto



Caros amigos, apresento-lhes uma das produções literárias que me vieram à pena, ou melhor, ao teclado, numa destes feriadões de 2013. Trata-se de um conto rápido e despretensioso.  (F. Carvalho)

O olhar oblíquo da quase-freira

F. Carvalho
No primeiro piso do prédio onde ficava o escritório de advocacia de Melchior perfilavam algumas lojas dos mais diferentes ramos. Ali era possível encontrar de salão de beleza a lojas de semijoias, confecções e calçados.  Num desses pontos trabalhava Dália, uma morena vaidosa, busto firme, cintura bem delineada e as pernas mais bonitas daquele pedaço de rua. O espetáculo não era maior porque ela usava roupas formais, sem decotes. Para cada dia tinha um diferente terninho comportado, mas insuficientes para esconder a curvilínea silhueta. Na verdade o efeito era contrário: instigava ainda mais as mentes poluídas.
Mas o que ela tinha de mais desconcertante era o olhar.
- Esta mulher é a encarnação da Capitu – disse Melchior, certa vez, ao seu amigo Manolo.  – Ela tem o olhar oblíquo!
- Olhar de ressaca, é o que você está querendo dizer, meu amigo – corrigiu o outro ao perceber que Melchior referia-se à personagem machadiana do romance Dom Casmurro.
- Oblíquo ou de ressaca,  seja lá o que for. Eu só sei que ela tem um olharzinho recatado e ao mesmo tempo malicioso... Ela olha com um jeito tímido, mas provocante.
- Uma safadinha, é o que você insinua! – definiu Manolo
- Isso. Isso aí. É isso que ela esconde por trás de tanto recato – concluiu Melchior.
- Mas eu acho que você está errado. Conheço essa menina. Saiu ano passado do convento. Ia ser freira, mas preferiu voltar para casa.
- Freira? Ia ser freira? Humm! E porque a belezura desistiu de ser esposa de Jesus?
- Não seja maledicente! Já lhe disse que essa moça é um poço de virtudes. Mesmo tendo renunciado o convento continua servindo à Igreja. É orientadora nos cursilhos, ensina o catecismo às criancinhas todos os sábados e é a voz mais linda do coral da catedral – defendeu Manolo. 
- Humm! Eu sei. Mas o olhar dela me desconcerta. Definitivamente não é a candura de um anjinho que ela transmite no brilho esfuziante das suas pupilas.
- Cara, não fala assim da menina – Pediu Manolo. - Olha, eu vou te falar uma coisa: Essa moça é minha afilhada. Não fala assim dela. Puta que pariu! Como você é pervertido. Pensar horrores de uma moça tão...
- Pô! Cara, desculpas. Quem não sabe é como quem não vê. Eu não sabia que ela era tua afilhada. Mas também, quem manda ter uma afilhada tão...
- Cala a boca! - Mandou Manolo, ficando vermelho de raiva.
- Que é isso, homem? Você não é de perder a esportividade! – estranhou o outro.
Manolo, que também estava recostado no parapeito, saiu bufando e foi para sua mesa de trabalho e naquela tarde não quis mais conversa com Melchior. Mas na cabeça dele pululavam todos aqueles termos qualificativos dirigidos à sua afilhada. “Safadinha”, “olhar oblíquo”, “olhos de ressaca”, enfim, uma nova Capitu. Nunca havia olhado para Dália com estes olhos. Lampejavam agora na sua mente cenas calientes da garota, mas resistia. Tentava a todo custo ter outros pensamentos que não fossem profanos. Lembrou o quanto ele e seu compadre Olivaldo eram amigos e se estimavam. Esperou que a nobreza destes pensamentos varresse a sujeira que enodoavam a imagem que tinha da menina. “Seu olhar era mesmo dissimulado? Será que ela escondia detrás dos olhos o furacão libidinoso sugerido por Melchior?”, perguntou-se.
Era sexta-feira. Manolo foi para casa com a cabeça poluída, entupida de ideias prevaricadoras.  Não conseguiu dormir naquela noite.
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            Corre pela boca do povo que quando o Satanás não vai, manda o secretário.  Uma destas duas coisas aconteceu na tarde do dia seguinte, um sábado, em que o centro da cidade estava mais vazio que o Saara.  Manolo precisou de uma petição que só poderia ser encontrada no hard disc do seu computador, no escritório, e para lá se dirigiu.
            Viu que o carro de Melchior estava estacionado. Tentou imaginar o que o sócio estaria fazendo àquela hora no escritório. Subiu um pequeno lance de escadas e logo se viu diante da porta. Nenhum mínimo reflexo de lâmpada acesa. Abriu a porta, entrou e ligou a luz. 
            - Que diabo é isso? – Pensou consigo, assustado ao ver paramentos de freira em cima do sofá da recepção.  À esquerda uma calcinha branca, largada ao acaso. – Mas que putaria é essa? Perguntou-se, novamente.
            Abriu a porta do escritório e foi tomado por um súbito torpor. Não conseguia processar aquilo tudo. Uma inacreditável cena de sexo em meio a códigos e vade-mécuns. Divisou uma moça morena totalmente despida, mas com capuz de freira na cabeça. Gritou:
            - O que é isso?
            Os dois devassos olharam para a porta.
            - Dália!!! Melchior!!! – gritou Manolo
Melchior era o mesmo que sempre dizia com despudorado moralismo: “Local em que se ganha o pão não se come carne”.