terça-feira, 10 de março de 2009

Como era feito um jornal antes do Page-Maker, do Quaker e do InDesign

Não sou mais novinho. Ou então as coisas estão evoluindo mais rápido do que percebo. Em meus tempos de foca, na redação de um hebdomadário parnaibano, o feitio de um jornal era muito diferente de hoje. E isto faz apenas 18 anos. Pouco tempo que se revela um salto cronológico. E tecnológico também.
Em Parnaíba, por exemplo, os dois jornais tradicionais daquela época eram produzidos artesanalmente em tipografias, aquele sistema em que profissionais denominados tipógrafos catavam letras de chumbo em caixotes para montá-las uma-a-uma até formar textos e páginas inteiras, a partir de originais escritos por jornalistas ou quem fizesse as vezes destes. As fotografias e anúncios eram reproduzidos por meio de clichês, uma espécie de desenho ou foto em discretíssimo relevo, encaixados como quebra-cabeças, em espaços deixados no meio dos grupamentos de tipos móveis. O resultado final era um enorme carimbo, encaixado numa prensa, às vezes manual, que “carimbava” folhas, muitas das vezes colocadas e retiradas manualmente.
O jornal onde comecei minha atividade jornalística não era assim. Tratava-se de um arrojo para época, pois era todo impresso no sistema off-set, em gráfica de Teresina. Tinha um sério problema de identidade, tinha o nome de Diário Popular, mas circulava semanalmente, depois quinzenalmente, até acabar, praticamente junto com o segundo governo de Alberto Silva. Mas, por outro lado, o DP cumpriu um papel importante naquele momento, onde até mesmo a tesoura-press, alternativa à falta de matérias locais, serviu para prover seus leitores de matérias e até colunas do JB, da Folha de São Paulo.
Para mim, o Diário Popular também foi importante. Além da oportunidade que me deu de escrever matérias e escrever uma coluna de tópicos, deu-me, a oportunidade de editá-lo, mais tarde. Mais do que isso, a falta de gráficas locais capacitadas para imprimi-lo oportunizou-me estar todas as semanas nas gráficas dos jornais da capital, dando sempre um jeito de observar a rotina de trabalho de jornalistas experientes, conversar com vários deles e perceber como se trata de uma gente singular. À exceção daqueles que vivem o jornalismo apenas nas jornadas diárias de trabalho, o jornalista pode se tornar um sujeito excêntrico, mas que se acha estiloso.
Lembro-me que chegava na gráfica sempre na manhã de quinta-feira. Subia para a sala de arte-final, tirava de um envelope ofício um calhamaço de folhas datilografadas e muitas fotos. O Carlinhos e o seu irmão Pádua, já estavam por lá tilintando as tesouras. Entregava tudo a um deles dizendo em que páginas seriam publicadas as matérias, separadas por categorias: artigos, colunas, matérias de política, matérias de cidade, outras seções e a infalível coluna social do Colombo Neto. Numa folha chamada diagrama, com traços amarelos na vertical e na horizontal que também delimitavam a mancha de impressão, o diagramador elaborava a boneca, marcando a lápis os espaços onde seriam montadas, mais tarde, as matérias. Nas folhas originais escrevia a retranca, as quantidades de linhas e de toques para o título, o tamanho do tipo e a altura e a largura das tiras de texto que depois seriam montadas em cima do diagrama. A pica(paica) era a unidade de medida mais utilizado, embora em alguns casos o centímetro também servisse.
Depois de diagramado o jornal, os textos seguiam para os digitadores. À medida que os originais eram liberados das mesas desses profissionais começava o trabalho de titulação, na máquina de datilografia, tendo-se como limitações as quantidades de linhas e de toques definidos pelo diagramador. Por exemplo: “titulo de duas linhas com 22 toques, cada”. Criava-se os títulos e encaminhava-se novamente à sala de digitação, acompanhados das indicações do diagramar quanto ao tamanho da letra. Tipo 28, por exemplo. As fontes já eram predefinidas entre times e arial.
Enquanto tudo isso era feito, o diagramador estava trabalhando nas artes dos anúncios. Tudo à base de tesoura, caneta nanquim, papel diagrama, régua de picas e régua de centímetros. Neste caso os textos também eram impressos sob medida na impressora jato de tinta ou outro tipo de impressora que utilizava uma esfera de tipos chamada de margarida.
Depois da etapa de digitação e revisão, tudo era impresso em folhas ofício ou A4 de acordo com as especificações do diagramador. O diagramador que, na maioria das vezes era o mesmo arte-finalista, começava a montagem do quebra-cabeça. As tiras de papéis impressos eram cortadas com tesoura e coladas em cima de uma nova folha de diagrama, sendo esta ultima de papel mais grosso, onde já estavam os anúncios fixados. Cercaduras e linhas para separar elementos gráficos eram feitas com caneta nanquim. Os locais das fotos ficavam vazios ainda nesta etapa. Retículas e textos chapados ficavam para o passo seguinte, o do fotolito.
Após a paginação manual e uma última revisão, as páginas eram encaminhadas para o setor de fotolito. As fotografias eram fotolitadas em separado, ampliadas ou reduzidas, de acordo com as especificações do diagramador. Por diversas vezes, na ânsia de voltar para casa, eu chegava a ajudar na correção dos negativos do fotolito das páginas. Pintava de preto, em cima de uma mesa de luz, os espaços que ficavam transparentes, por falha do equipamento ou de outra ordem. Logo em seguida um profissional experiente vazava, com estilete, os espaços das fotografias no negativo do fotolito das páginas. Em seguida colava, com durex, o fotolito das fotos nestes mesmos locais. Depois de mais algumas pinceladas com corretivo nos espaços transparentes, as páginas estavam prontas para serem gravadas nas chapas de zinco. Após este procedimento, numa gravadora que ainda hoje é utilizada, as chapas são encaminhadas à impressora, rotativa ou plana.
Não foram poucas as vezes que após ver a máquina cuspir a ultima página do ultimo exemplar, já embalava tudo, chamava um taxi, seguia para a rodoviária de Teresina, onde embarcava em um velho e sucateado ônibus da extinta Empresa Marimbá. E voltava feliz para casa, em Parnaíba.
Hoje em dia, os programas de paginação eletrônica tornaram o processo mais fácil, mas obrigaram os profissionais de textos a serem também seus revisores e diagramadores das próprias matérias. Tesouras, nanquins, e réguas de picas abriram alas para o Page-Maker, o Quaker e o InDesign.

Texto: F.Carvalho

Um comentário:

Fernanda Dino disse...

Adorei a postagem!